Arquivo do mês: julho 2011

Jack

Há algum tempo atrás, minha tia perguntou se eu estava com 30 anos. Desconsidero o álcool presente no sangue dela, afinal, na minha família, isso até que é normal. Mas 30 anos? Tirei os óculos e, então, ela disse:

– Agora dá pra ver que é menos, tá com cara de 28.

Tudo bem que os óculos podem envelhecer um rosto (não todos), o meu princípio de calvície também ajuda e a barba, com certeza, tem um papel importante nessa história. Mesmo assim, 28 anos? Minha prima, filha dessa tia, tem 28. Ela deveria saber que eu tenho menos, afinal, eu fui o caçula da família por um bom tempo.

Nessas horas eu fico pensando: quando foi que eu envelheci?

Minha conclusão: não sei, mas começo a perceber que devia seguir mais os conselhos da minha mãe e do meu pai. O que eles me pedem pra fazer e eu sempre digo que farei, mas nunca faço é tão simples, tão bom e tão necessário. Eu só preciso dormir melhor.

Meu problema com o sono surgiu nos tempos de TCC. Além de não dormir várias noites, eu tinha uns pesadelos, mesmo acordado. Depois disso, comecei a trabalhar. Quem é ou conhece um publicitário, sabe que horário de trabalho é muito relativo. Tu tens hora pra chegar, mas não necessariamente pra sair. Bom, esse é um fato isolado, no meu emprego atual, raramente faço hora extra e, quando faço, nunca fico até muito tarde na agência. No máximo, faço uns jobs em casa mesmo.

Independente da carreira escolhida, o fato é que tendo que trabalhar em período integral eu não consigo fazer tudo o que eu quero fazer. Desde compor músicas, escrever roteiros, poemas e essa crônica, até lavar roupa, fazer comida e trocar os lençóis. Claro que dá pra fazer muitas coisas, mas eu quero fazer coisas demais. Logo, ultrapasso as madrugadas e durmo pouco.

Não sei ao certo como deixar de dormir te faz envelhecer, porém, acabei de pensar em uma teoria. Acompanhe meu raciocínio: eu acordo às 7h30, entro no trabalho às 8h30. Num dia normal, saio às 18h e vou pra casa a pé. Chego, tomo um chimarrão com a minha irmã, tomo banho, janto, ligo para os meus pais e converso com um pouco mais com a minha irmã. Nesse ponto já são 23h e ela vai dormir, pois acorda às 6h. A partir desse horário é que eu começo a fazer as minhas coisas. Escrevo minhas histórias, leio meus livros, assisto aos meus filmes e etc.. Quando vejo, já são duas, três, às vezes até quatro horas da manhã. Dizem por aí que precisamos dormir 8h por dia. Façam as contas. As horas que eu não durmo são as horas que eu envelheço por dia.

Sério, curti essa teoria.

Talvez, se eu somar todas essas horas de sono perdidas, eu chegue aos 28, ou até aos 30, como a minha tia disse. Envelhecer é inevitável, todo mundo sabe disso. Até aquelas velhas que se pintam de laranja e se estufam com botox. Mas ninguém gosta de admitir que está ficando velho. Até porque envelhecer só é legal até um estranho te chamar de tio. Depois disso, perde totalmente a graça. E antes que eu perca o sono, é melhor eu tentar recuperar algumas horas da minha juventude.

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Jogos Mortais

Machuquei minhas costas no sábado. Ao tentar colocar uma mala em cima do armário, senti meus músculos se amarrando num nó digno do mais profissional dos escoteiros. Tá, talvez não tenha sido tanto assim, mas doeu.

Achei estranho me machucar dessa maneira, afinal eu faço exercícios físicos. Posso não ser considerado um esportista, mas sedentário também não. Jogo futebol todo final de semana, exceto nesse, porque machuquei as costas.

Tá certo que esse jogo de final de semana sempre serviu mais para aliviar o estresse do que para me manter em forma, mas também ajuda. Apesar das pernas não serem das mais calibradas pro chute ou pros dribles, corro o jogo inteiro e tenho fôlego pra isso.

Minha irmã reclama que eu sempre volto dos jogos com alguma dor ou machucado. É verdade. Sempre tem um esfolão, pisão ou um calombo na canela. Os machucados não são doloridos o suficiente para abandonar o compromisso semanal. O prazer da endorfina circulando pelo sangue compensa cada roxo, cada fisgada na coxa, cada fraqueza no joelho, cada unha preta. A dor é o preço que a gente paga por não ter uma quantidade considerável de endorfina circulando ininterruptamente no nosso organismo.

E ainda me perguntam como eu posso jogar futebol quando estou doente. Pra mim, é o melhor remédio. Endorfina, por definição, significa “analgésico interno”. Sem mais, meritíssimo.

Essa semana eu fui privado do meu jogo por estar com dor. Pena que essa não veio combinada com endorfina.

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Forrest Gump

São 5h da manhã da terça-feira, 12 de julho de 2011. Meu despertador está programado para tocar daqui uma hora e meia, mas eu ainda não dormi. Tentei, porém nem cheguei perto.

Por volta das 22h de ontem, minha ex-namorada veio conversar comigo. Sim, a mesma citada na crônica do dia dos namorados. Quando ela disse que queria conversar, logo pensei que, mais uma vez, ela falaria sobre seus sentimentos e a forma como terminamos. Estava enganado, o assunto era eu.  Ela veio me perguntar a razão de eu ter escrito sobre ela daquela forma, transformando-a numa grandessíssima filha da p*#@. Escrevi a minha versão, que era a que eu conhecia cada detalhe, cada sentimento e cada dor.

Lavamos toda a roupa suja de 1 ano e 8 meses de namoro. Bem, na verdade 1 ano e 7 meses, porque o último nem podemos considerar um relacionamento. Ela reclamou que eu não falava, que em vez de chacoalhá-la e apontar seus erros, eu dizia “vai ficar tudo bem” e engolia a mágoa. É difícil ouvir isso, ainda mais quando não é pela primeira vez. Num recente relacionamento, todas as discussões surgiam pelo fato de eu não falar sobre o que me incomodava e acumular as mágoas até o ponto de explodir. Esse é meu maior defeito.

Nessa conversa eu falei, falei até demais. Nem me preocupei com o que ela estava pensando de mim naquele momento. Além de ter sido grosseiro, fui cruel. Tudo que ela falava, eu dava um jeito de esculachar, só para não perder a pose, ou, como ela diz, não tirar a máscara que uso pra me proteger. Ela viu ódio no meu olhar, mas não era dela.

Por que eu não consigo ser a pessoa que eu era? O fim desse relacionamento acabou comigo. Jogou-me no chão com tanta força que até hoje eu fico na dúvida se já levantei. Não a amo mais, disso eu não tenho dúvida, e meu maior ressentimento é não odiá-la, mesmo tentando de todas as maneiras.

Hoje eu entendi o que muitas pessoas já haviam me dito: jogo na defensiva. Espero o movimento do outro para poder dar o bote. E não foi ela que me fez ver isso. Foi outra pessoa, no mesmo dia. Definitivamente, não me reconheço mais.

Durante essa minha briga comigo mesmo, acabei me afastando de pessoas muito importantes pra mim. Inventei histórias para me tirar de lugares que eu deveria estar. Criei personagens para justificar medos supérfluos. Criei tramas para esconder fatos que não havia motivo algum para esconder. Esforçava-me mais inventando desculpas do que aproveitando esses momentos. Afastei-me de amigos extremamente necessários, sem os quais eu não teria conquistado o que conquistei, construído o que construí, vivido o que vivi. E quando eles precisaram de mim, onde eu estava? Fugindo. Correndo para longe de onde deveria estar. Esquivando-me das responsabilidades que um amigo deve assumir. Vez ou outra eu dava as caras, me fazia presente, para não ser esquecido. Mas não era mais o amigo que eu deveria ser. O amigo que eu devo ser. O amigo que eu quero ser.

Pela primeira vez, não estou querendo fazer drama. Essa é a crônica mais sincera e mais difícil que já escrevi. As palavras me vêm como nas outras, mas o peso de cada uma é muito mais real. Isso não significa que não escreverei mais as minhas vivências, mas me mostra o quão egoísta eu estava sendo. Eu não posso ser o protagonista de todas as minhas histórias. Ao meu lado existem pessoas que vivem, sentem e sofrem tanto quanto eu.

Não posso sentir por elas, mas posso e devo estar ao seu lado para ouvir, chacoalhar, acalmar, abraçar ou mandar à merda. Isso está na essência da amizade, então, deve estar na minha essência também.

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Plan 9 from Outer Space

Meu pai vive dizendo que eu sou um baita dum sonhador. Concordo com ele, apesar de o que ele considerar sonho eu chamar de plano. Tenho muitos planos pra minha vida e acho isso ótimo. Meu grande problema é ser um pouco acomodado. Por mais que eu queira as coisas, muitas vezes eu não as busco.

Desde que me formei, há um ano e meio atrás, penso em fazer uma pós-graduação ou mestrado, pra colocar em prática um dos meus planos: ser professor. Já cogitei muito isso, mas só de pensar em algo semelhante ao TCC eu já tenho calafrios e, então, a ideia vai pra gaveta.

Outro plano recorrente é o domínio de vários idiomas. Meu tio-avô Lourenço, uma das pessoas mais inteligentes que conheço, sempre me pergunta quantas línguas já estou falando. Minha resposta tem sido a mesma há muito tempo: duas e meia. Falo português e inglês e arranho o espanhol. Ele, por sua vez, fala inglês, alemão, italiano, espanhol, francês e português. Eu sempre digo que vou começar um curso, que quero aprender francês ou alemão, mas talvez fosse uma boa eu aprender bem o espanhol antes. Só falo. Até agora, troco três frases em cada língua e nada mais.

Bom, o fato é que eu cansei de fazer planos apenas na minha cabeça. Estou a fim de fazer alguma coisa que, além de me realizar, traga alguma mudança para mim e me faça crescer. Há umas duas semanas, um projeto não sai da minha cabeça. Um projeto que junta as línguas com o meu retorno à vida acadêmica. Junta a minha realização com meu crescimento. E, definitivamente, algo que me traz uma mudança. Já comecei a procurar, enquanto estou muito empolgado, e espero encontrar logo algum mestrado interessante no exterior. Não fiz intercâmbio durante a faculdade e isso é uma coisa da qual me arrependo. Agora a situação é diferente, mas mesmo assim, muito estimulante.

Vou levar adiante? Vou engavetar mais esse? Não sei. Por enquanto, a vontade é tão grande que eu nem estou considerando as dificuldades de, além de mais um TCC, ter que escrever em outra língua.

… Ohhhhh Wait!

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Eu, Eu mesmo e Irene

Recentemente descobri que analiso as pessoas. Não a ponto de julgar seus atos, mas de perceber seu comportamento e detectar um padrão nele. Não sempre, porque senão eu viraria um pseudo-Freud e quem me conhece sabe que eu não vou com a cara desse velho tarado.

Analiso as pessoas que vivem ao meu redor, sem compromisso de estar certo, já que nem sempre compartilho minhas observações sem embasamento teórico ou conhecimento técnico. Vejo, interpreto e tiro minhas conclusões.

Algumas vezes eu realmente consigo ir a fundo e entender o que a pessoa está sentindo ou vivendo. Mas nunca fui muito bom com conselhos, então, me contento em ajudar a pessoa entender o que está acontecendo para que ela mesma possa encontrar o melhor jeito de lidar com a situação.

Até que um dia, durante uma conversa com uma amiga, que chamaremos de Irene, acabei analisando uma pessoa que, até então, achava que conhecia muito bem: eu mesmo.

Nessa hora você deve estar pensando: “Nossa, Léo! Que bela porcaria. Todo mundo se analisa um dia!” Fato! Só que o que eu descobri sobre mim foi, no mínimo, espantoso.

Durante o envolvimento de alguns meses, que tive com a Irene, ela dizia me ver como uma pessoa diferente da que eu sou agora. Enquanto eu estava com ela, um outro Leo se manifestou. Mais sério, responsável, bem-humorado. Mais maduro. Desde que terminamos, ela diz que eu mudei. Sou mais sarcástico, menos responsável. Um gurizão!

Eu sou a ambiguidade conflitante de Jack*.

Minha análise partiu da realidade que eu vivo. Tenho 22 anos, sou formado há um. Me mudei da casa dos meus pais aos 17. Namorei sério. Quase noivei. Tive que lidar com o término do relacionamento. Trabalho desde adolescente. Como profissional graduado, estou no terceiro emprego. Digamos que eu tive que amadurecer para certas coisas com uma considerável pressa. Não que com 22 anos a pessoa deva ser inconsequente, mas pode arriscar e errar, pois ainda terá tempo de consertar tudo.

Ao assumir tais responsabilidades, o Leo que minha amiga via aparecia. Ao me permitir errar, voltava a viver até a última consequência.

Não considero nenhuma versão de mim mesmo errada ou inadequada, apenas preciso dançar conforme a música. Preciso viver o que resta desse eu ainda irracional, pro maduro tomar conta. Tentei amadurecer de repente, e, isso me fez sentir sufocado.

Não estou dizendo que sou contra ter responsabilidades, apenas que preciso viver esse momento da minha vida dessa maneira, porque, caso chegue a hora de eu assumir toda a minha vida como fardo, eu, provavelmente, estarei pronto e saberei lidar com isso.

É nesse ponto que eu encontro uma diferença entre meus eus e os personagens do Clube da Luta. Enquanto o Tyler era tudo que o Narrador (aka Jack) queria ser, mas não era, eu sou meus dois eus, alternadamente. Resta saber se serei dois até a última consequência ou se me tornarei responsável por narrar todo o resto da minha própria história.

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P.S.:  Escolhi “Eu, eu mesmo e Irene” para o título da crônica por ser muito mais direto no nome do que o “Clube da Luta”, no qual me baseei e comparei.

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