Arquivo do mês: abril 2011

Easter in Bunnyland

Ah, a Páscoa! Finalmente chegou o feriadão mais esperado por muitos. Esse ano contemplado com mais um dia de folga, graças a um inconfidente que, assim como os ovinhos de chocolate, também foi espalhado por diversos pontos para quem quisesse encontrar.

Que começo mais amargo pra uma crônica Pascal. Tem que ver isso aí!

Bom, o fato é que o feriado de Páscoa é muito bom porque tem todos os anos e, assim, a gente sempre pode se programar para aproveitá-lo onde quisermos. Eu, pra variar, fui pra minha querida Portelinha. Fazia meses que eu não visitava minha terra natal e, agora, tinha outro motivo pra ir. Depois de quase um mês, entre preparação, cirurgia e recuperação, meu pai já estava pronto para voltar pra casa, mas ainda não podia dirigir. Eu assumi a direção.

Haja paciência! Demoramos nove horas e meia para percorrer o trajeto que, normalmente, fazemos em seis. Foram três horas e meia só para percorrer os primeiros 65 Km. Muita lentidão, congestionamentos e acidentes, nenhum com a gente, graças a Deus.

Deus. A gente fala do feriadão de Páscoa e quase se esquece Dele, que nos proporciona esses belos dias de folga.

Talvez nem tanto você, mas eu cresci aprendendo que a Páscoa é muito mais ligada ao Papai do Céu do que ao Coelhinho. Não que um exclua o outro.

Sempre fui às celebrações pascais na Igreja. E sempre ganhei chocolates.

O que nunca ganhei foi o sorteio do ovo, tradição quase sagrada na Páscoa da família Stein. Todos se reúnem ao redor da mesa depois do churrasco. Coloca-se o nome de todos que estão presentes em papeizinhos e começa a eliminação. Os nomes são retirados, um após o outro, eliminando participantes e aumentando a euforia de quem fica. Lembro de ter participado de uns 15 sorteios. Nunca ganhei!

Pensei comigo mesmo: Esse ano vai ter menos gente, pois alguns não poderão se deslocar até a terrinha, outros já tem outra família pra chamar de sua e começar novas tradições. Mas não pensei que fosse tão pouca gente. Pra se ter noção, eu era o único neto presente. A mesa, que antes parecia pequena de tão cheia, agora se mostrava grande demais.

O tempo passa. E, por mais que a gente lute, têm coisas que não resistem a isso. Nesse fim de semana prolongado, pude aproveitar muito a minha família, como há muito eu não aproveitava. Aproveitei amigos e encontrei figuras que já foram muito importantes para mim, algum tempo atrás. E dar esse pulinho no passado é muito bom. Mas a gente passa com o tempo e não adianta lutarmos contra isso.

Esse ano não teve sorteio do ovo. E quem perdeu foi a quase sagrada tradição.

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Cantando na Chuva

Sempre fui apaixonado por música. Desde criança meu pai me acostumou a ouvir diversos ritmos e estilos. Durante o dia, eu e minha irmã podíamos curtir a Turma do Balão Mágico ou o Trem da Alegria, mas à noite era a hora de ouvir o que meu pai chamava de “música para descansar os ouvidos”. Estas variavam entre todos os estilos musicais que meu pai e minha mãe gostavam: o melhor dos anos 60, 70 e 80, temas de filmes, orquestras, MPB, entre muitos outros.

Desde criança, ouço música em todas as situações e, inclusive, desenvolvi uma espécie de classificação musical de acordo com a atividade que estou desempenhando: quando preciso me concentrar muito, prefiro um blues, quando estou limpando ou arrumando a casa, apelo para o bom e velho jazz, cozinho ouvindo Rock n’ Roll das antigas, no caminho para o trabalho escuto Indie Rock e assim a banda vai tocando.

E ouvindo todo tipo de música, aprendi a apreciar cada som, nota e instrumento que fazem parte de uma composição. Isso é o que eu costumo chamar de separar a música para ouvi-la completamente. Eu gosto de ouvir e entender a função de cada elemento que compõe aquela música. Acho isso tão legal que até tento mostrar isso pros meus amigos. Alguns não entendem essa minha obsessão, outros sim. E me ensinam mais.

Me ensinam a ouvir música em outras coisas, como a chuva.

O barulho da chuva é algo que, só de lembrar, já nos traz diferentes sentimentos. É como se cada pingo fosse uma nota que compõe essa sinfonia. Com adágios e allegros, sopranos e tenores, raios e trovões. Uma música que é alegre pra alguns e triste pra outros. É a música que se ouve com a alma. Que pinga no rosto e disfarça as lágrimas. É o ritmo leve que precisamos quando estamos sós. É a melodia perfeita para os momentos que estamos a sós. É a sinfonia que embala nosso sono, dá ritmo pro nosso romance. É a orquestra de um único instrumento que faz com que ouçamos a música que nosso coração toca. E canta. Na chuva.

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P.S.: Escrevi esta crônica ouvindo o álbum Cloud Nine, dos Temptations. Um clássico da Motown Records, de 1969.

Clique aqui para ouvir minha música favorita desse álbum.

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Um homem de família

Meus pais estão de férias. Não férias normais, com viagens à praia ou diversão o tempo inteiro. Há aproximadamente 20 dias eles estão de férias na minha casa, em Porto Alegre. Claro que as circunstâncias que os levaram a vir pra cá foram muito específicas e pontuais. Meu pai tinha uma cirurgia marcada e, mesmo recuperado, ainda não pode viajar. Então, aproveitaram para morar com os dois filhos nesses dias, como há sete anos não mais podiam.

No tempo que morávamos junto, cada um tinha um papel na casa: meu pai era a voz da razão; minha mãe, a emoção; minha irmã era a atenção e o cuidado; e eu era o palhaço.

Cada um cumpria seu papel e tudo funcionava bem. Mas com a mudança da minha irmã para Porto Alegre, em 2004, tudo deu uma balançada. Meu pai começou a ficar mais emotivo, minha mãe tinha que suprir a atenção e o cuidado, que eram as funções da minha irmã, e eu tive que aprender a usar a razão (insira sua piada aqui).

Dois anos depois, chegou a minha vez de abandonar o calor aconchegante da casa dos meus pais e ir morar com a minha irmã em Porto Alegre. Não foi estranho chegar e perceber que ela já havia desenvolvido os papéis que faltavam e que, associados com minha função inicial de palhaço e o racionalismo precariamente desenvolvido, formamos uma bela dupla. Mas como será que havia ficado a outra dupla? Será que aqueles que nos prepararam a vida toda pra esse momento, de abrir as asas e voar sozinhos, também conseguiram suprir as funções que cabiam aos antigos moradores do ninho?

Digamos que Darwin estava certo quando disse que os melhores da espécie se adaptam a novos ambientes. Meu pai continua sendo a razão, mas com muitas doses de emoção. Minha mãe continua sendo a emoção, mas assumiu integralmente a função de cuidar dos outros, no caso, outro. A palhaçada, que na verdade era a função de tentar deixar todos alegres e confortáveis, sempre esteve presente nos dois, porque foi deles que eu puxei esse dom (que muitos veem como infantilidade, mas eu vejo como visão positiva aos fatos que, querendo ou não, ocorrem em nossas vidas).

Agora que eles estão aqui, descobri que os papéis, apesar de terem se desenvolvido nos outros também, ainda se mantêm. Quando eu tenho uma dúvida sobre um projeto, investimento ou uma simples atitude, é ao meu pai que eu procuro. Quando alguma coisa me chateia, alegra ou comove, busco refúgio com a minha mãe. Minha irmã sempre está ao meu lado quando preciso de apoio e atenção (ou o carro emprestado). E eu, bem, eu sempre estou fazendo tudo que eu posso pra fazê-los sorrirem, seja contando ou inventado piadas, tocando as músicas que eles gostam no violão ou piano, e até dirigindo despretensiosamente, só pra passear com eles, pelas ruas de Porto Alegre num domingo à tarde. Não importa qual seja o meu papel nessa família, desde que no roteiro esteja escrito que eu deva estar junto a eles.

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Any Given Sunday

Nas antigas civilizações pagãs, o primeiro dia da semana era tido como o dia de reverenciar e prestar homenagens ao deus Sol, qualquer que fosse sua denominação. Daí surgiu o nome do dia, que em várias línguas significa “dia do sol”, como em inglês.

Mas a palavra domingo não significa dia do sol. No latim primitivo, domingo se escreve Dies Dominicus, que quer dizer “Dia do Senhor”. Essa nomenclatura foi adotada por alguns países de idiomas diferentes, acatando as orientações decididas no Primeiro Concílio de Nicéia, confirmando a tradição apostólica, que substituiu o nome do primeiro dia da semana do calendário romano (Dies Solis) pelo citado logo acima.

Mas esse papo está muito chato e não é sobre o nome que eu quero falar. Quero é saber por que o domingo se tornou um dia tão angustiante para mim?

O sábado é o dia que a maioria das pessoas costuma aproveitar para fazer suas festas e divertir-se com os amigos. Quando você acorda no domingo, está cansado, com ressaca e não consegue fazer nada de produtivo.

… Também não era isso que eu queria dizer.

Quando eu era criança, o domingo era o melhor dia. Era quando eu me encontrava com meus primos e passava a tarde toda brincando na casa da vó. Era quando a família toda se reunia para o almoço, as mulheres tomando chimarrão embaixo do parreiral, os homens tomando cerveja na frente da churrasqueira e as crianças correndo e brincando pelo pátio.

O tempo passou, os almoços continuaram e eu me mudei pra Porto Alegre. Devo dizer que 2006 foi um ano que marcou muito os meus domingos. Desde que vim pra cá, tive que alterar minha rotina de fim de semana. Muita coisa boa surgiu, como os jogos do Inter no estádio, um chimas na redenção ou jogar futebol com os amigos, mas o que mais me marcava era a falta que eu sentia de passar o dia com a família. O domingo passou a ser o Dia da Lembrança. O dia que eu queria estar com eles, e quando estava, sabia que era o dia de me despedir deles.

Então, agora meus domingos são assim: recheados de saudade de tudo que vivi, brinquei e aproveitei. Não que minha vida seja uma droga e que eu viva remoendo o passado, ao contrário, estou muito feliz com minhas conquistas pessoais e profissionais. Mas não consigo superar a dor do domingo e aquela sensaçãozinha de que está faltando alguma coisa nele. Acho que, para mim, assim como um dia aconteceu para os povos antigos, o domingo tenha deixado de ser o Dies Solis. Talvez, para mim, ele seja o Dies Nubilates.

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